Curso Integral de Fotografia - Composição - Capítulo 001- Introdução

Introdução - O que é composição?


A composição é fundamento mais nobre da fotografia, aquele que trata do arranjo entre os elementos da imagem de forma a permitir a eficiente comunicação com o receptor, através de uma linguagem visual regida por códigos e conceitos objetivos e subjetivos.

O objetivo final é dar continuidade à difusão dos valores simbólicos contidos na cena, passando-os ao receptor e criando as melhores condições possíveis para a interpretação da imagem. O uso cuidadoso de cores, grafismos, texturas, contrastes, ângulos e posicionamentos permite o controle absoluto sobre cada aspecto visual da imagem. O fotógrafo deve sempre procurar a mistura equilibrada entre visão refinada, sensibilidade apurada e conhecimento técnico para atingir a comunicação que deseja.

Mas, apesar de bem definidas, as regras de composição também podem (e devem) ser colocadas à prova. Certa vez, um fotógrafo experiente me disse que ‘você percebe que está fotografando bem quando descobre que pode chutar o balde’, ou seja, desvirtuar as regras. Isso é importante quando se sabe o que está fazendo. O conhecimento da própria linguagem pessoal-visual-fotográfica, aliada à evolução da necessidade de expressão, concede ao fotógrafo a sublime capacidade de subverter as convenções.

Há o tempo de ir mais além, surprendendo o receptor com imagens que traduzem o pensar de quem as criou. Tais ‘quebras’ trazem informações inéditas e levam à novas reflexões. Entretanto, este nível de controle sobre a imagem exige do fotógrafo a plena consciência sobre sua própria expressividade, e não apenas o conhecimento da técnica e domínio dos seus recursos.

Ao final, surge a tão desejada ‘assinatura artística pessoal’, algo que define o artista como dono de uma linguagem única e própria. Talvez essa seja a principal exigência para que a criatividade se mostre. A criatividade é a pura expressão liberta, voando alto com extrema força própria após a leve impulsão inicial dada pela aplicação esperta de conceitos.

O debate


Com a consolidação da fotografia digital, estamos testemunhando atualmente uma verdadeira explosão. Milhões e milhões de pessoas não hesitam em clicar todo e qualquer momento com suas maquininhas, registrando cenas cotidianas e transferindo à outras pessoas as suas memórias. É um maravilhoso mundo novo, onde mais uma ferramenta de expressão está à nossa disposição para transmissão de emoções e pensamentos.

Em debate recente com alguns alunos do meu curso de fotografia, abordamos a tão falada ‘banalização da imagem’ , termo fácil de ser encontrado nas rodas de conversas entre fotógrafos e aficcionados. Sim, é verdade que nunca se fotografou tanto. As pessoas nunca tiveram nas mãos a possibilidade de registrar seus momentos à custo tão baixo como hoje. Mas a idéia de que a fotografia não é mais a mesma por causa do sucesso das câmeras digitais deve ser tratada com cuidado. Em nosso debate, depois de algumas análises, percebemos que este ‘movimento’ é legítimo e natural, pois o registro puro e simples da imagem é a premissa básica da fotografia desde a sua invenção. Dessa forma, o que milhões de pessoas fazem hoje nada mais é do que apertar um botão para fazer uso de toda uma plenitude de recursos em prol da mais prosaica atividade: eternizar a memória.

O outro lado


Por outro lado, existe uma parcela de pessoas que não querem apenas registrar os momentos, mas também expressar sentimentos e comunicação. Para estes, não basta apertar o botão. Buscam o preenchimento da imagem com informações, objetivas ou subjetivas, para garantir que o aquele impacto inicial da imagem continue sendo transmitido a cada pessoa que observar sua fotografia.

Este é um lado diferente que preza a força do signo gráfico e das conceituações artísticas para cumprir uma outra função da fotografia, mais voltada à expressão do que ao simples registro de fatos. Dominam a técnica e algumas vezes a arte, e elevam a fotografia à um patamar nobre. São cientes da sua condição diferenciada.
Mas entre estes pode haver um grupo ainda mais interessante, que considera sua imagem como algo que precisa ser realmente único, e atingem o objetivo brilhantemente, muitas vezes sem perceber ou desejar. Usam algo muito especial para fazer coisas diferentes e sempre novas, surpreendentes e excitantes. São os criativos, estes mutantes alienígenas perdidos em nossa mísera dimensão. Seriam eles os responsáveis pelos desenhos rupestres de Altamira e Lascaux? Saberemos algum dia...

Estes estão aí para nos mostrar lados antagônicos e totalmente pessoais das artes, fotografia inclusa, sempre envoltos em um incrível turbilhão de resultados. O mais fantástico é que, paradoxalmente, às vezes, há um desprendimento tão grande entre criador e suas obras que parece ser este o único fato que prova suas capacidades, pois tudo sempre é muito natural e fluido. Eles só precisam criar, criar, criar. E assim seguem se comunicando e se expressando.

Bem, se estes são especiais, como faremos para tentar alcançar seus resultados? Há métodos de doutrinação? Algo que possa converter pessoas em seres criativos?

Falando de fotografia, há, sim, meios de fazer mais e melhores imagens. Há técnicas, conceitos e truques que podem apresentar algo novo à qualquer pessoa, e só é preciso estabelecer um início. Há um caminho, e nele há uma busca.

Se estes recursos não formam novos mutantes, pelo menos abrem as portas para uma compreensão melhor da criatividade e da comunicação na fotografia.

O horizonte


Bem, agora que honramos devidamente lados tão diversos, podemos nos concentrar naquele que mais nos interessa, sem remorsos. Sabemos o que queremos. Mas é óbvio que para se comunicar com a imagem é preciso dominar mais do que um único botão. E depois de estudadas as técnicas, ainda é preciso combinar tudo com o senso criativo e artístico. Aí, a conversa muda. Este é o ponto onde todos param e olham o vasto horizonte à frente, tão aparentemente inacessível e distante. Muitos dão meia-volta e aceitam o limite, satisfeitos com a técnica adquirida. Não estão errados, é uma questão de proposta. Quem vai em frente segue de maneira tão diferenciada que consegue contar qualquer história de maneira especial, única e exclusiva. Isso já é criatividade.

Desafio constante


Para a fotografia, a idéia criativa sempre é desafiadora. O aspecto livre do pensamento criativo às vezes se encontra em frente à complicações que parecem fazer com que a inspiração de todas as pessoas provém da mesma fonte, e isso é duro.

Muitas vezes tive idéias que acreditava serem inéditas, para depois descobrir que alguém já havia pensado a respeito, ou produzido algo fantasticamente relevante sobre aquilo. Sempre é uma ducha de água fria, com certeza. Nestes casos, vale a pena efetuar constantes pesquisas e estudos sobre os resultados alheios. Veja bem, eu disse resultados, não métodos. O método precisa ser criado por você para que o resultado seja original. Com o desenvolvimento dos seus próprios métodos, seu trabalho nunca será igual a nada do que foi produzido antes, acredite. Afinal, a criatividade reside em todo o caminho percorrido. No final, temos a alavanca para fazer algo maior, melhor e mais criativo. Nunca é fácil, mas sempre é muito bom!

Precisamos sempre nos nutrir de interferências externas para ´turbinar´ nossa percepção e, assim, potencializar nossos processos criativos. Isso não significa que devemos copiar as idéias, pelo contrário. Devemos sim avançar nas idéias, mergulhar e nadar em meio à conceitos e práticas alheias, conhecer o que já existe para saber o que podemos criar a partir de agora. Valorizamos o caminho percorrido, tanto por nós mesmos quanto por qualquer outro. A partir daí, dá para oferecer algo sempre novo e surpreendente!

Então...
Na fotografia isso consiste em querer sempre algo novo, estar sempre em busca de informações e conhecimento sobre obras antigas e modernas, sobre qualquer manifestação artística. Consiste também em sempre ser desafiado pelo próximo trabalho, que poderá (deverá?) ser mais criativo que o anterior. Nunca se sabe até o final, mas dá pra ter uma boa previsão.

É legal ter parâmetros, um próprio e outros externos. Hoje é fácil saber o que acontece pelo mundo e entrar em contato direto com outros produtores de comunicação. O principal é ter em mente que o horizonte se afasta à medida que avançamos, portanto, não há limites para o que o pensamento criativo pode realizar e nem há uma meta final a ser alcançada. Há apenas um constante caminho de desafios, novas propostas e novas criações. Nem sempre melhores, mas novas. Simples assim.

Na técnica, prática e busca constante, provocamos o pensamento criativo. Buscamos a conexão entre imagem e receptor, aqueles mágicos segundos em que a foto prende a atenção dos olhos. O novo, diferente e criativo é interessante! A boa fotografia, seja em qual segmento for, necessita disso. Mas a busca é constante. Quando achamos ter encontrado o ponto ideal na foto mais recente, um novo desafio aparece e descobrimos que ainda falta muito...

Nos capítulos seguintes conheceremos os pequenos detalhes que fazem toda diferença na linguagem fotográfica. Você será apresentado aos vários truques da composição e aprenderá a utilizá-los de maneira criativa e eficiente.