Curso Integral de Fotografia - Composição - Capítulo 006 - Métrica: Regra dos Terços

A métrica fotográfica diz respeito a tudo que se refere ao posicionamento sistemático dos elementos na imagem. Seus fundamentos estão baseados na influência que cada parte da imagem possui sobre o todo ou sobre outra parte distinta, considerando pontos que atraiam a atenção, áreas de discordância, agrupamentos de ítens de interesse, o caminho escolhido para guiar os olhos e tudo mais que se refira à interação, dentro e fora da imagem. Não só a harmonização entre as partes é tratada pela métrica, os conflitos e contrastes também são de extrema importância.

Ao final, o objetivo é provocar a conexão entre diversos setores da imagem de maneira que a mensagem carregue todas as indicações necessárias para a sua devida interpretação.

Seja crítico e metódico


Sua visão, trabalhando em conjunto com o pensamento analítico, deve limitar-se às bordas da janela de enquadramento, determinando quais os elementos possuem relevância com a mensagem pretendida. Ao mesmo tempo, é preciso ter ciência do que está na periferia em uma visão ampla, pois ocasionalmente haverá algo que mereça - ou precise - ser inserido. E, por mais incrível que possa parecer, haverá muito a ser excluído!

Há de se tomar bastante cuidado com os pequenos detalhes ocultos na cena, como contornos, linhas, vazamentos de luz e cores dispersas que possam tornar a mensagem menos clara, ou sua transmissão menos eficiente. Em contrapartida, estes mesmos detalhes também podem agir como agentes positivos, fortalecendo o contexto da imagem ao provocar sensações ou criar atração visual. A função dos mecanismos da métrica é posicionar estes e outros pontos da cena no enquadramento, de modo controlado e crítico, para garantir que a imagem transmita, por si só, as sensações esperadas.

Regra dos Terços


Talvez esta seja a mais conhecida regra de composição. Massivamente utilizada em praticamente todas as formas de comunicação visual, esta técnica consiste no posicionamento descentralizados dos elementos com o objetivo de aumentar o apelo visual, dinamizar ou harmonizar a imagem e criar ligações de interesse com o receptor.

"A regra dos terços tem origem na matemática antiga. A proporção áurea ou número de ouro ou número áureo é uma constante real algébrica irracional denotada pela letra grega "phi" e com o valor arredondado a três casas decimais de 1,618. É um número que há muito tempo é empregado na arte, e nota-se a sua freqüente utilização por artistas da antiguidade, com as primeiras manifestações oriundas da ancestral arquitetura egípcia. Este número está envolvido com a natureza do crescimento e da progressão matemática. Phi (não confundir com o número Pi (π), como é chamado o número de ouro, pode ser encontrado na proporção de crescimento de conchas (o nautilus, por exemplo), nos seres humanos (o tamanho dos ossos dos dedos e mãos, por exemplo), até na relação populacional entre machos e fêmeas de vários nichos biológicos. Há inúmeros outros exemplos que envolvem a ordem do crescimento."

Na prática


Na fotografia, a proporção áurea é atingida quando dividimos a cena em três colunas verticais e três horizontais, resultando em 9 partes. Nos quatro pontos onde estas linhas divisórias se encontram, temos os pontos áureos. A colocação do sujeito próximo a qualquer um destes pontos torna a imagem muito mais equilibrada e interessante. Em alguns casos (praias, por exemplo), o motivo da imagem também pode ocupar toda uma linha ou coluna.

Perceba ao lado como a cabeça da borboleta foi posicionada em um dos pontos áureos, valorizando esta área de contato visual e pleno interesse na cena.

Dividindo a imagem


Ao fotografar cenas que possuam seções distintas, tente não centralizar o ponto de destaque da imagem. Faça com que uma das seções, aquela que possui o ponto de maior interesse (veja o capítulo Ponto Focal), permaneça próxima a um dos pontos áureos, ocupando apenas um terço do enquadramento vertical e horizontal.

Coisas a evitar


Nem sempre fica bom centralizar a linha do horizonte. Isto é muito útil em fotografias decenários, ou sempre que houver grande domínio de linhas horizontais ou verticais. Evite também deixar grandes áreas sem informação relevante, a menos que o restante da composição dependa muito desta área. A tentação de centralizar o elemento principal sempre será grande, mas com o tempo você perceberá que a imagem fica muito mais harmônica e dinâmica com esta nova arrumação. Paradoxalmente, é preciso saber também o momento em que a divisão dos terços não funciona! Use o bom senso, mas sempre aliado à análise crítica e reconhecimento da cena antes do disparo.

Nas fotos desta página podemos perceber como tudo isso funciona. Há dois cortes possíveis para a mesma cena: na esquerda, uma composição onde o ponto de interesse da imagem (a mulher e o menino) foi centralizado, juntamente com o horizonte, evitando que a atenção do receptor percorra o restante da foto. À direita, temos um enquadramento mais adequado, posicionando o centro de interesse no ponto áureo inferior direito, trazendo mais dinamismo. Houve também o deslocamento da linha d´água para o terço inferior horizontal, dividindo a imagem em partes mais equilibradas e dando mais espaço para os olhos do receptor se movimentarem pelo cenário, como indica a seta neste diagrama:

Horizontal ou vertical?


Nesta foto, que retrata o mesmo momento da da cena anterior (porém, com o uso de uma teleobjetiva de 500mm para fechar o enquadramento) ,podemos ver novamente a divisão dos terços de forma independente. Foi utilizado apenas o eixo horizontal, dividindo a cena em três partes distintas: casas, chuva/montanhas e nuvens. Não há divisão de terços na vertical. Este enquadramento deu muita força às nuvens e às águas, colocando as construções em posição de imensa fragilidade.

Não se torne previsível!


O uso da regra dos terços (ou a sua quebra) dependerá imensamente dos resultados que se pretende obter. Como regra geral, ela sempre funcionará, mas é preciso ter muito cuidado para não se deixar dominar pela atuação sempre precisa desta regra. A constante presença dominadora da regra dos terços pode levar suas fotos a mostrarem sempre uma métrica monótona, indiferente e padronizada, já que é um dos conceitos mais difundidos e utilizados na fotografia. Isso não significa que devemos deixá-la de lado, pelo contrário. Torna-se necessário um uso consciente, cuidadoso, estudado. Seu bom uso, sempre equilibrado, confere às cenas um caráter bastante dinâmico, principalmente quando utilizado com outros recursos igualmente importantes, como as linhas de força. É preciso que a regra dos terços se torne uma esperta e útil ferramenta de composição, e não um caminho-das-pedras infalível, onipresente e, quase sempre, previsível.

Turbinando o terço


Com o domínio da fotografia digital, ficamos livres do formato tradicional baseado no filme de 35mm. Frequentemente faço cortes diferentes com programas de edição para criar enquadramentos panorâmicos ou quadrados, ampliando as possibilidades criativas.

Mas, ao aplicar o enfoque tradicional da Razão Áurea nestes formatos diferenciados (figura 1), corremos um sério risco de não conseguir dispor os elementos no quadro de maneira satisfatória, pois os pontos áureos podem ficar muito próximos ao centro do quadro. Para evitar isso, podemos usar outro modo de divisão, a Simetria Dinâmica (figuras 2, 3 e 4). Este processo, bem mais elaborado e moderno, desloca os pontos áureos mais para os cantos, de modo proporcional (quanto mais retangular for o corte, mais para os cantos irão os pontos), e trata as razões dimensionais da imagem de forma mais precisa. É ideal para formatos panorâmicos, pois permite uma distribuição muito mais harmônica dos elementos.

Montando a simetria dinâmica



A grade da Simetria Dinâmica é menos óbvia do que a divisão tradicional em partes iguais. Vamos analisar sua montagem, lembrando que:

A) Se você não quer fazer uma foto panorâmica, essas medidas devem ser feitas mentalmente, na hora da composição.
B) Se você deseja fazer um corte panorâmico posteriormente, faça as linhas mentalmente na hora da composição também, porém, já considerando o novo formato que sua foto terá mais tarde, após os cortes que fará na edição.

Vamos aos passos:

1 - Comece pelo lado esquerdo da cena, traçando uma linha imaginária começando no vértice superior esquerdo (’’a’’), indo até o vértice inferior direito (’’b’’). Esta será a primeira linha principal.

2 - Trace duas novas linhas, ligando os outros vértices (’’c’’ e ’’d’’) à linha principal em um ângulo de 90o. Neste momento, você encontra dois pontos áureos (círculos em amarelo).

3 - Repita o mesmo processo no lado direito da cena, começando pelo vértice superior direito (’’e’’) e indo até o vértice inferior esquerdo (’’f’’). Esta será a segunda linha principal.

4 - Trace as últimas linhas unindo os vértices ’’g’’ e ’’h’’ à segunda linha principal, sempre em ângulo de 90o. Os pontos de encontro indicam os dois últimos pontos áureos.

Pronto! Com prática, este processo se tornará cada vez mais rápido e eficiente, e ajudará bastante na composição de cenas mais equilibradas, principalmente em formatos não convencionais.

Quebrando a regra


Quando a cena pede, você pode subverter ou até esquecer a regra dos terços, visando uma composição mais inesperada e surpreendente. Algumas imagens se beneficiam da simetria, ou até mesmo da centralização total. Tudo depende da forma como os elementos interagem na sua composição.

Estas duas fotos mostram bem isso, onde a centralização dos temas principais funcionou, dando força às linhas verticais. Na primeira foto, do vendedor de sorvete, há a centralização dos dois eixos, vertical e horizontal. Perceba como a linha do horizonte foi posicionada no meio do quadro.

Isso indica que, embora eficiente, a regra dos terços não é mandatória e está sujeita à minuciosa análise da imagem e do consequente impacto ou interpretação que se deseja dela.