Curso Integral de Fotografia - Composição - Capítulo 007 - Ponto focal

Uma fotografia, mesmo sendo uma representação finita e bidimensional de algo ocorrido em uma fração de tempo , pode ter seus elementos de informação agrupados de forma que sejam absorvidos pelo receptor de forma sequêncial.

A soma das linhas de força e dos pontos de atração pode criar caminhos pela imagem para, como já sabemos, guiar o olhar do receptor. Dessa forma podemos entender que uma fotografia pode ter início, meio e fim, como um filme ou história em quadrinhos. Bem, para que uma foto cumpra essa tarefa, é preciso que haja uma história, ou uma sequência de informações conectadas no enquadramento, até que venha a conclusão que encerra a leitura. Neste ponto, o receptor já deve ter absorvido todos os dados objetivos e subjetivos da imagem, e está pronto a fazer sua interpretação.

Quem tem esta função de finalizar a leitura é o ponto focal, uma área da imagem que traz um forte elemento de interesse, mas que só deve ser percebida ao final, depois que os olhos sigam uma trajetória sequencial, determinada pelos pontos de ligação entre os elementos.

O ponto focal é, então, o desfecho da imagem. Seu posicionamento pode se valer das regras do terço, mas não é dependente disso. Certamente, o uso de linhas de força contribui bastante para seu êxito, por isso é fundamental que você analise bem tudo que está enquadrado para que possa combinar os elementos de forma precisa e eficiente.

Defina seus objetivos e conclua com o Ponto Focal


Antes de acionar o disparador, você precisa considerar se o centro de interesse da imagem está claramente definido. Estas são algumas situações que podem atrapalhar o ponto focal:

- Fundos que desviam a atenção do elemento principa;
- Luzes ou formas que criam pontos de interesse conflitantes com o sujeito da imagem
- Linhas e elementos que "expulsam" o receptor para fora da imagem, ou guiam seu olhar de maneira inadequada
- Desfoques de fundo com luz mais intensa que o primeiro plano
-Pontos com cores contrastantes

É sempre melhor resolver estas questões no momento do click. Você pode cortar a imagem posteriormente, no laboratório, de forma a obter um melhor enquadramento, mas lembre-se que esta prática descarta pixels da imagem, reduzindo sua qualidade gráfica. Se o corte for necessário, evite retirar mais do que 15% da imagem.

Esteja sempre muito atento com todos os elementos da composição e crie diálogos entre eles, usando linhas, formas e cores como conexões.

Foco x Ponto focal


Uma das confusões mais frequentes dos fotógrafos iniciantes é considerar o «ponto de foco» como «ponto focal». O foco, que representa o nível de nitidez de uma imagem, nem sempre estará associado ao ponto focal, que é o centro máximo de interesse da cena. Ou seja, podemos ter um centro de interesse sem nitidez, como prova a fotografia ao lado.

Esta foto foi feita no Zôo do Rio de Janeiro, com uma objetiva de 500mm que, por sua própria natureza, diminui bastante a profundidade de campo. Com o uso deste recurso, foi possível focalizar apenas a cerca do aviário onde o tucano estava. A cena evoca o sentido de aprisionamento, colocando a ave como sujeito principal. A ave é, portanto, o ponto focal. A cerca é o elemento que conduz à interpretação. A leitura é finalizada quando vemos o tucano que, mesmo estando completamente fora de foco, é o ponto central de interesse. Ele é, portanto, o ponto focal.

Valorizando o ponto focal


Muitas vezes uma simples alteração no ângulo de visão é suficiente para que a cena ganhe outra dimensão. O correto posicionamento do ponto focal é sensível a fatores como perspectiva, combinação de cores e formas, interação entre as linhas, etc.
Nos exemplos acima, de uma bromélia iniciando sua fase de inflorescência, podemos perceber como o posicionamento faz toda a diferença. Na primeira foto há um interessante padrão de formas verdes que é quebrado pela flor arroxeada. Esta flor tem qualidades para ser o ponto focal da imagem, mas da forma como a cena foi enquadrada, as folhas largas e de roxo mais escuro nas laterais desviam toda a atenção, disputando o interesse do receptor e retirando da flor o seu lugar de destaque. O ponto focal ficou indefinido e confuso.

Na segunda foto, um novo enquadramento foi realizado, com a câmera sendo posicionada mais acima e próxima da bromélia , eliminando da cena as folhas das laterais. O obturador da câmera também foi fechado um pouco, em torno de 1 ponto, de forma que as áreas em sombra se tornassem ainda mais escuras. A flor continuou ocupando o mesmo lugar, o ponto áureo superior direito. Mas desta vez, a ausência de áreas de distração fez com que a pequena flor se tornasse, então, o principal ponto de interesse da cena.

Este exemplo ilustra como podemos transformar uma cena simples e sem resultados em algo impactante, simplesmente deslocando o ângulo de visão. O ponto focal precisa ser sempre analisado e corretamente inserido na imagem, de forma que todos os elementos se relacionem de maneira equilibrada e coerente.

Atração


A atração, na fotografia, é a força que determinada parte de uma imagem possui de desviar nossa atenção, alterando o caminho do olhar e diminuindo a força das outras áreas, chegando até mesmo a anulá-las.

No contexto de uma imagem, mesmo quando esta é repleta de informações visuais diferenciadas, sempre haverá um ponto ou área que atrairá a atenção de forma mais intensa. A presença de certos signos gráficos, como a figura humana, círculos, triângulos e contrastes de luz ou de cor, é irresistível à nossa atenção. Isso pode ser usado para fins positivos na composição. A principal forma de utilização é a inserção destes elementos de forma que ajam como «chamarizes» na orientação do olhar do receptor.

A atração é o meio, o ponto focal é o fim


É certo que podemos considerar como elementos de atração certos conceitos, como os pontos áureos e as linhas de força. Pontos focais também são elementos de atração, mas sua natureza é finalizar a leitura visual da imagem, enquanto a atração deve ser utilizada como um meio para este fim. Sendo assim, utilize recursos de atração que levem ao ponto focal, mas tome cuidado para que estes atrativos não assumam a função de «finalizador de leitura». Faça com que o ponto focal seja o único e definitivo finalizador, com força suficiente para suplantar os elementos de atração que levaram o receptor à ele.

Nos exemplos abaixo é fácil perceber como a atração funciona. Na primeira imagem (A), apesar do tema interessante e das ricas texturas , há um triângulo no canto superior esquerdo, resultado de um enquadramento descuidado. Esta forma compete com os outros elementos da imagem, atraindo a atenção para longe do ponto focal (os dedos segurando a rede e a lâmina) e diluindo a força dos reais pontos de interesse da imagem. Na outra foto, alterada para servir como exemplo, o triângulo foi digitalmente retirado. Note como a cena ficou muito mais equilibrada. Toda a atração está concentrada no trabalho executado pelas mãos, sem distrações que distanciem o receptor do tema.