Curso Integral de Fotografia - Composição - Capítulo 010 - Espaço e Dimensão

O registro fotográfico tenta confinar em uma área bidimensional fatos que estão ocorrendo em um mundo tridimensional repleto de sentimentos subjetivos, e isso não é uma tarefa fácil. A fotografia possui vários truques para dar ritmo, dinâmica e movimento às nossas imagens estáticas, evocando sentimentos difíceis de serem textualmente descritos (alegria, raiva, suavidade, aspereza). Mas e quanto às grandezas físicas próprias do nosso mundo de três dimensões, como tamanho, profundidade e distância?

Alguns recursos podem ser utilizados, e todos utilizam exatamente as mesmas saídas que temos para entender visualmente e nos posicionar no mundo à nossa volta. Desfoques, perspectivas e escalas devem ser inseridas na imagem para dar ao receptor sensações físicas, complementando toda a gama de mensagens que a cena traz em si.
Estes recursos estão ligados aos símbolos objetivos da cena, que são visíveis e explícitos. Não se trata de idéias ou conceitos, mas sim de representações gráficas que dão à nossa percepção dados que conhecemos e usamos no dia sempre que olhamos algo e nos situamos no espaço.

Pense criativamente nestes recursos, e considere-os como «associativos», isto é, podem trabalhar em conjunto com outros da sua classe em uma combinação de efeitos que aumente a sensação física de espaço. Combine desfoques com perspectivas, interações entre os planos, distorções típicas de algumas objetivas, etc, e crie efeitos que tragam surpresa e impacto visual.

Planos


Podemos considerar que uma imagem tridimensional é formada por uma sequência de camadas, e que cada uma delas possui um ou vários elementos de informação visual. Cada uma destas camadas é, portanto, um plano. Na fotografia, quando combinamos os planos e os tornamos identificáveis, conseguimos passar a idéia de tridimensionalidade, principalmente com o uso da perspectiva e do desfoque. Os elementos presentes nos planos podem ser relevantes em maior ou menor grau (através do seu tamanho ou nitidez de foco), e isso dependerá apenas do contexto geral da imagem.

Nas gravuras abaixo, podemos ver como uma imagem bidimensional (A) pode ser representada tridimensionalmente, ao separarmos seus planos (B). Neste exemplo podemos identificar facilmente 5 planos, e ainda observar como os elementos mais distantes se tornam graficamente menores pelo efeito da perspectiva.

O foco é muito importante


A foco possui uma importância vital para a definição dos planos. Podemos escolher quais os pontos permanecerão nítidos através do (foco seletivo e da profundidade de campo, já que nem sempre a amplitude focal de uma objetiva é tão extensa a ponto de permitir o foco em todos os planos.A profundidade de campo determina a extensão de planos que permanecerá nítida na imagem. Felizmente, podemos controlar este efeito. Veja:

A profundidade de campo é maior quando...
- Usamos aberturas de diafragma menores (ex., f/168);
- Usamos objetivas mais curtas (ex., grande-angulares);
- Estamos mais distantes do ponto focalizado.

A profundidade de campo é menor quando...
- Usamos aberturas de diafragma maiores (ex., f/2.8);
- Usamos objetivas mais longas (ex., tele-objetivas);
- Estamos mais próximos do ponto focalizado.

Quando deixamos os últimos planos desfocados e os primeiros planos nítidos, ganhamos um interessante efeito onde se tem a impressão de que os elementos da frente parecem «destacados» da imagem. Isso de deve ao fato do nosso cérebro considerar que áreas desfocadas estão mais distantes. A sensação de proximidade e distância é um recurso muito útil em fotos onde seus componentes possam se misturar, seja pelo excesso de cores ou formas. Desfocando alguns planos conseguimos separar os motivos, diminuindo a confusão visual e organizando a cena para que o receptor possa interpretá-la

Desfoque


Quando a profundidade de campo é pequena, a imagem não permanece focalizada em sua totalidade. Isso cria uma separação de planos, uma representação espacial que, se bem elaborada, traz uma grande sensação de profundidade, como se a fotografia fosse uma «caixa» de onde poderíamos retirar as ciosas que estão em seu interior. Essa sensação é puramente visual e interpretada em nosso cérebro, que considera distantes as regiões desfocadas dos últimos planos, ou próximas quando o desfoque é nos elementos dos primeiros planos.

Perceba como esta foto nos leva à uma estranha sensação de que o inseto está voando livremente à nossa frente, como se estivesse destacado da cena. Isso acontece porque a profundidade de campo foi suficiente apenas para cobrir o corpo do inseto no primeiro plano, mantendo o último plano em completo desfoque.

Dica:
Objetivas como as meias-teles (de 60mm a 105mm) e teles (acima de 105mm) geram desfoques com grande facilidade, mesmo em diafragmas mais fechados.

Foco seletivo


Outro recurso baseado na profundidade de campo curta é o foco seletivo, onde deixamos nítidos apenas um plano da cena, que pode ser próximo ou distante, não importa. O foco seletivo é excelente para criar profundidade e destacar áreas de interesse ou pontos de expressão. Lembre-se que, apesar do destaque de apenas uma região da cena, é necessário que a continue havendo interação com os outros planos para garantir a continuidade visual da imagem. Se isso não acontecer, o receptor pode ser levado à permanecer em apenas um ponto de toda a imagem, não percorrendo sua totalidade.

Portanto, é preciso critério para a aplicação do foco seletivo, pois a força de atração de elementos nítidos é grande. Estruture uma combinação equilibrada de recursos de atração, tentando dar às áreas desfocadas alguma força que crie balanço com os pontos em foco.

Na foto ao lado, os olhos dos modelos foram usados para gerar este balanço, por meio da força atrativa que olhos possuem em uma fotografia. Mesmo desfocado, o olho da pessoa em segundo plano consegue atrair e manter a atenção, evitando que o receptor fique preso apenas à lateral esquerda da cena.

Dica:

Para facilitar o uso do foco seletivo, diminua a profundidade de campo com estes meios:

- Use objetivas mais longas (meia-teles ou mais).
- Aproxime-se o modelo.
- Use diafragmas mais abertos.

Escala


Nós mantemos inúmeras referências em nosso "banco de dados visual", e utilizamos isso para reconhecer formas e situações no espaço bidimensional de uma fotografia. Porém, precisamos, em certos casos, recorrer a parâmetros mais diretos e consistentes para facilitar a leitura de uma imagem, ou mesmo aumentar a intensidade da mensagem. O «elemento de escala» é um destes parâmetros. Trata-se de um componente de informação identificável pelo receptor, colocado em ponto estratégico na composição, de forma a facilitar o reconhecimento espacial na cena, além de definir o tamanho e distância dos objetos, ou entre os objetos.

Esse recurso é de grande utilidade em fotos angulares de cenários, pois estabelece uma "medida física" que dá dimensão à toda a imagem. Sem algo que defina a escala de tamanho entre os objetos, toda a grandiosidade de um eventual cenário perde o impacto. Assim que um elemento dimensional é detectado, a cena de forma por completo aos olhos do receptor.

Em fotos de arquitetura ou de viagens este recurso é especialmente valioso. Ao colocar na cena pessoas ou construções simples, como bancos de praça ou postes, estamos complementando a imagem com informações que serão utilizadas como referência espacial.

Procure colocar seus elementos de escala em posição privilegiada na imagem. A Regra dos Terços pode ser usada para isso. É preciso que este elemento seja um ponto de atenção forte o bastante para atrair a atenção do receptor. Se possível, crie caminhos com linhas de força para guiar a atenção até o seu elemento de escala. Ele precisa ser ativo e presente na imagem, caso contrário, não cumprirá seu papel.

Na foto ao lado, o tamanho da cachoeira só é reconhecível por causa do elemento conhecido no primeiro plano. Se o ciclista e sua bicicleta não estivessem ali, não seria possível determinar o tamanho da queda, tampouco a real força das águas.

Perspectiva


à medida que nos afastamos de um objeto, temos a sensação visual de que ele diminui de tamanho. Quando nos aproximamos, seu tamanho parece aumentar. Por isso, enxergamos linhas paralelas (uma estrada, por exemplo) se encontrando no horizonte, unindo-se no que chamamos de «ponto de fuga». Essa é a perspectiva, um
fenômeno ótico que existe por
conta da nossa capacidade de enxergar em 3 dimensões. O posicionamento dos nossos olhos, em frente à cabeça, nos dá uma visão estereoscópica, e com isso conseguimos compreender precisamente a distância entre nós e
os objetos que nos cercam.

Podemos registrar este fenômeno com a fotografia, e utilizá-lo para dar ao receptor a sensação de distância e espaço.O efeito da perspectiva em uma foto pode ser intensificado com o uso de objetivas curtas (angulares e grande-angulares), ou posicionando os elementos da cena em planos diferentes. O objeto mais distante ficará graficamente menor, e a percepção do receptor fará o resto.

Este recurso é muito interessante, pois não está ligado à conceitos subjetivos mas também pode ser usado para expressar situações e/ou emoções. Trata-se, de certa forma, de um recurso gráfico, gerado através da interação de diversos elementos da imagem.

Ao criarmos este tipo de sensação na cena, o receptor recebe uma informação diferente daquelas emitidas por conceitos subjetivos. É um complemento, algo que deve ser utilizado para reforçar idéias já presentes na imagem.

Dica:
A perspectiva fica mais pronunciada com o uso de objetivas curtas (angulares), que aumentam o tamanho dos elementos em planos próximos. Para dar um efeito ainda mais surpreendente, procure ficar mais perto do modelo. Se estiver fazendo fotos de modelos em movimento, como estas cenas de esporte, espere pelo momento máximo da ação para disparar.