Controlando os volumes com dodge & burn

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Entre criadores visuais há uma certeza: nossos ofícios são irmãos, e obedecem a conjuntos de regras em comum.

Um deles diz respeito à forma como a luz interage com o ambiente. A fotografia se beneficia de muitos conceitos do desenho e da pintura, pois usa os mesmos códigos visuais.

Dentre eles, um dos que mais gosto de brincar é o volume, que é controlável através do uso de sombras e luzes.



Dodge & burn

Na fotografia química podíamos alterar a quantidade de luz em trechos da imagem, durante a copiagem, controlando a sua incidência sobre o papel fotográfico quando a imagem era projetada sobre ele pelo ampliador.

Com pedaços de cartolina fazendo sombras em áreas da imagem projetada evitava-se que o papel recebesse luz ("dodge", ou "desviar"), deixando aquele trecho da foto mais claro.

Podia-se também concentrar a luz usando cartolinas vazadas, deixando aquelas áreas mais escuras ("burn", ou "queimar"). A regra era bem simples:

  • Maior tempo de luz sobre o papel = sombras mais densas.
  • Menor tempo de luz sobre o papel = luzes mais intensas.

    Isso permitia um ajuste localizado da exposição, reforçando a fotometria original, o que é excelente. Mas hoje, no digital, dá para ir muito além, ganhando controle preciso sobre os volumes e mehorando as sensações espaciais da foto!

    Desenhando luzes e sombras

    No digital o processo é o mesmo do passado: adicionar luz e sombra na imagem para controlar a relação entre claros e escuros, ou dinãmica tonal. No Photoshop isso pode ser feito através do uso de brushes suaves com "tinta" branca (adicionar luz) e "tinta" preta (retirar luz) em uma camada no modo de mesclagem Soft Light (Luz Difusa). Bem simples.


    O complicado é obedecer ao comportamento real de luzes ambientes e ser coerente com formas e texturas. É aqui que conhecer as artes tradiconais ajuda: desvendar a ação da luz sobre os objetos é a chave.

    meu processo

    Eu uso a prática de pintura e desenho constantemente em meus processos criativos e estudos. Em meus desenhos penso nos efeitos da luz, e tento reproduzí-los de acordo com observações prévias. Estas "provas de conceito", como gosto de chamar, são críticas na minha fotografia, pois uso os mesmos recursos ao editar fotos.

    Um pequeno exemplo: Na arte aprendemos que as sombras "empurram" a imagem para trás, enquanto luzes "puxam" para a frente. Assim pode-se reforçar ou modificar o volume de objetos simplesmente modelando a luz que recai sobre ele. Este é um truque clássico de percepção, onde o cérebro é manipulado para "ver" trechos da imagem de um jeito diferente.

    Veja um resultado prático onde destaquei a sensação espacial e reforcei a perspectiva natural da cena. Note como as luzes e sombras criam a sensação de volume:

    Saiba mais sobre esta arte >>>
    Além deste, há muitos outros truques compartihados entre as artes tradicionais e a fotografia. Futuramente escreverei mais artigos sobre eles, pois o tema é praticamente infinito!

    mão na massa!

    Nas imagens abaixo fica fácil de entender como o processo funciona. Fiz esta foto em um atelier de marcenaria, e como as sombras eram difusas e suaves, os volumes não se sobressaiam como eu desejava. Esta é a foto original:


    Pintei reforços de luzes e sombras à mão livre sobre a foto (Photoshop + Wacom Intuos), usando um brush bem suave e de baixa intensidade, para manter o controle do efeito. Essa nova camada foi setada para o modo de mesclagem Soft Light:


    O resultado final foi este. Os volumes se tornaram mais presentes, trazendo sensações táctes e espaciais à escultura. Não recriei sombras, apenas reforcei o que precisava, obedecendo as interações da luz já existentes.


    Veja as diferenças com as imagens lado a lado. Note os reforços de volume em áreas como o olho, bochecha e maxilar:


    Nesta ampliação fica mais fácil de ver as diferenças. O efeito não é um simples aumento de contraste, mas sim a redefinição localizada de volumes pelo reforço de luzes e sombras nas áreas certas.


    então...

    Tenho um mantra que não abro mão: "Tudo está nos detalhes". Buscar estes pequenos e infernais diferenciais quase invisíveis é uma obsessão aqui no estúdio. O restante é a mistura de artes distintas.

    No meu caso, somar os ancestrais "dodge & burn" aos fundamentos de volumes do desenho e pintura (também muito antigos), misturando tudo nos nossos modeníssimos meios digitais, funciona muito bem para mim. Uso isso tanto em fotos preto-e-branco como coloridas.

    Mas isso não significa que você precise seguir o mesmo caminho. O simples uso do "dodge & burn" clássico, apenas para controlar exposição e fotometria, já é um excelente meio para a criação de imagens mais dinâmicas e destacadas!

    Em tempo: Apesar do Photoshop já possuir uma solução para dodge & burn no menu de ferramentas, eu prefiro usar a camada Soft Light pelo fato de me sentir mais confortável e ter mais controle sobre o efeito e as pinceladas. Há vários caminhos para obter a mesma solução, mas o que importa sempre será o resultado.

    Espero ter sido útil! Boas fotos!

    Hudson Malta


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