A arte do Preto-e-Branco

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No final, resta a leveza. Por isso, para mim, o preto-e-branco possui um lugar especial na linguagem fotográfica realmente comprometida, pois faz do resultado final algo maior do que a soma daquilo que o formou, e o faz usando “menos”. Dá pra ser mais incrível que isso?

Nada está mais ligado à fotografia do que imagens clássicas em preto-e-branco, onde apenas a luz se faz presente para transportar emoções grandiosas. Segundo muitos fotógrafos, entre eles vários mestres, a ausência da cor liberta nossa percepção para se preocupar apenas com as formas e suas interações com a luz, ampliando nossa capacidade de observar e traduzir os significados presentes na cena. Acredito nisso, mas também penso que o reducionismo do PB tem uma ligação maior com algo que sempre valorizei, que é a conexão com a ideia de fazer mais com menos.

Misturado a isso ainda há o ato de abdicar de algo (como uma vibrante e linda cor na cena) para atingir um objetivo que, para ser alcançado, exigirá sacrifícios. Isso, sem dúvidas, se torna um grande exercício de resignação, abnegação e certeza do que se deseja. No final, resta a leveza. Por isso, para mim, o preto-e-branco possui um lugar especial na linguagem fotográfica realmente comprometida, pois faz do resultado final algo maior do que a soma daquilo que o formou, e o faz usando “menos”. Dá pra ser mais incrível que isso?

Técnica e expressão

Analisando o trabalho de grandes papas do assunto, como Adams, Herwitt, Karsh, Salgado, Bresson, Weston, Lange, Nachtwey, Cappa e tantos outros medalhões (a lista não caberia aqui) vemos que uma forte associação sempre está presente: técnica e expressão. Todos eles, sem exceção, utilizam a técnica de maneira primorosa como ferramenta para atingir os níveis mais altos de expressão e sentimento, dando às suas obras uma dimensão plenamente carregada de empatia, comunicação e impacto.

Não é difícil perceber que o quadro fica incompleto quando há o desequilíbrio entre estes dois lados, aparentemente tão antagônicos. Mas saiba que não são tão contrários assim, pois ambos integram uma linguagem da mesma forma que os recursos literários, capazes de dar a um texto a profundidade que se deseja. Mas isso só funciona nas mãos de quem sabe o que fazer com recursos tão poderosos. E, claro, é preciso ter o que dizer.

Técnica pura não acende fagulhas, e expressão sem fagulhas não incendeia as mentes. Entendo o preto-e-branco como essa química explosiva entre técnica e expressão, conectados e essenciais um ao outro como corpo e alma. Então, fica assim:

Você tem o que dizer? Então, aprenda a se comunicar. Você sabe se comunicar? Então, tenha o que dizer.

Simples assim, como preto no branco.

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O dilema do tempo atual

Com o advento da fotografia digital, muitos consideram que algo se perdeu. Ouço com muita frequência fotógrafos (até mesmo os mais novos) declararem que “a coisa morreu”, “a alma se foi”, “a fotografia perdeu o calor que possuía”, “não é mais como antes”. Discordo amplamente, com todas as forças, de peito arregaçado em toda a plenitude, com a sorte de ter vivido os dois lados, em contato íntimo com bases para entender o que aconteceu.

No oposto dessas declarações, há uma legião daqueles (mesmo entre os antigos) que compreenderam as mudanças trazidas pelo processo digital e souberam a tirar proveito delas, estudaram e aprenderam, baseados no imenso legado que veio do passado. Souberam efetuar as conexões (ahh, as conexões, sempre elas!) e fizeram da “nova face da fotografia" uma simples continuação do ponto onde o filme parou, em um crescente desenvolvimento que não estanca no tempo. E ainda há mais por vir.

Nessa onda, vi declarações de grandes mestres que se atualizaram e passaram a dizer que o processo digital melhorou muitos aspectos, e não piorou outros. Mas entendo que isso só é fato para quem vai fundo e entende o que acontece por trás de tantos bits, pois tem tanto lá dentro como havia no processo químico. Que, por sinal, também exigia muito conhecimento! Porém, também entendo que absorver tantos conceitos neste novo mundo digital, em sua maioria matemáticos e abstratos (bem diferentes da objetividade física presente na química) não é pra qualquer um. Vivo imerso na tecnologia digital como desenvolvedor desde 1985 e na arte desde que me entendo por gente, assim me vejo capaz de afirmar isso.

Gelo e fogo? Água.

Aí, aparece a grande questão: Como é possível, em tanta frieza e exatidão deste mundo digital, encontrar a medida certa para a transmissão da sutileza típica da expressão fotográfica? A resposta é simples: seja atual "E" continue firme aos propósitos do passado! Parece estranho pensar assim, mas é isso mesmo. Olhando bem de perto, tudo que a fotografia digital traz é baseado nos conhecimentos ancestrais. Costumo pensar e dizer aos meus alunos que hoje há “outros 50%” que precisam ser entendidos e mesclados ao que os antigos mestres fizeram e nos passaram. Dessa maneira, nada mudou, apenas cresceu!

Não acredito naquele blablablá de “morte da fotografia” ou "antes é que era bom", pois tudo continua como foi. Continua sendo expressão, e continua usando uma determinada ferramenta para que aconteça. Só muda o suporte e alguns processos, exigindo outro tipo de saber, mas a essência continua lá, inalterada. Fotografia nunca deixou de ser fotografia, assim como aconteceu com o cinema, a literatura, a pintura e tantas outras artes que passaram por processos de mudança.

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Mas e com o preto-e-branco?

Em termos de expressão e valor da imagem, claro que também continua mesma coisa. Nunca mudará. Mas o processo, este sim, sofreu mudanças consideráveis. A obtenção de um bom preto-e-branco exige muito mais cuidado hoje do que a cor, ao contrário do passado, onde a fotografia PB era a escolha mais óbvia e simples que se poderia fazer. Trabalhar com negativos e cromos coloridos exigia aparato e conhecimentos bem mais densos. O próprio Bresson declarou, em uma entrevista, que sua escolha pelo PB no início de carreira havia sido, grande parte, por aspectos financeiros! Era mais barato montar um laboratório PB caso se desejasse manter o controle da imagem do início ao fim, controle esse que o Bresson não abriria mão.

Hoje, entretanto, se faz necessário um conjunto de técnicas e preocupações mais cuidadosas para que o PB mantenha as características de excelência que se conseguia no filme. Quando isso é alcançado há inúmeras vantagens que passam até mesmo pelo impacto ambiental. Por exemplo, achei interessante o comentário do Sebastião Salgado, no documentário “Revelando Sebastião Salgado”, quando ele relata a nociva poluição gerada pelo processo químico, onde os ácidos eram simplesmente descartados no meio ambiente após as sessões de revelação e copiagem, e é interessante perceber seu prazer por estar livre disso atualmente, dentre outras "complicações analógicas" que ele cita em sua fala. A propósito, neste trecho e em outros, fica claro que ele não exalta nem o "filme" nem "os sensores", e sim a "fotografia", sempre. Vindo dele, deve ser mais do que um recado.

Longos, longos caminhos

Quanto às técnicas que envolvem a excelência no PB digital, a estrada é longa. Passa pela escolha do formato dos arquivos e das suas profundidades binárias, uso de métodos específicos de edição e tratamento, conhecimento da formação da cor no domínio digital (sim, formação da cor!), controle pessoal dos processos de impressão, tipos de pigmentos e características de papéis especiais. Estes, por sinal, sofreram uma evolução incrível em relação aos papéis utilizados na fotografia química, em termos de durabilidade e qualidade. No cenário ideal, fotografias digitais em preto-e-branco não ficam mais à sombra do legado químico. Mas este cenário ideal depende de fatores para existir, sendo o mais importante deles o conhecimento.

Nestes tempos onde tanta cultura está disponível, basta vontade e senso crítico para localizar os conhecimentos certos e pessoas ideais a quem se ligar. Enfim, deixando de lado estes aspectos técnicos, o que resta é navegar na expressão e sentimento, embora isso seja algo que não se aprenda tão facilmente. Este é outro caminho, certamente muito mais longo, pessoal e profundo, pois envolve um infinito de coisas que precisamos descobrir sobre nós mesmos. Minha dica: Retire de si as cores e distrações, e veja se o que sobra continua sendo você. Se for, parabéns. Você conseguirá pensar em preto-e-branco e fará mais com menos.

Boas fotos!

Hudson Malta


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